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03 maio 2010

O designer de interiores, profissional ou amigo?

Li esse texto da Maria Alice Miller,e trouxe a vocês na íntegra.As reflexões dele interessa a todas as pessoas que pretendem algum dia ou não contratar um profissional de interiores.

Tenho visto a cada dia mais lojas do ramo de decoração - principalmente de mobiliário, mas também de outros produtos - acenarem com consultorias e projetos "gratuitos", fornecidos dentro das próprias lojas, a quem ali adquira seus móveis, cerâmicas, louças e metais.

Trata-se de uma generalização do serviço prestado há muitos anos pelas lojas de armários modulados, que tem se espalhado pelo mercado na luta pelos Clientes que têm se interessado a cada dia mais por ter casas "bonitas e acolhedoras".
Sei que sou um lado interessado e portanto "suspeito" para falar sobre este assunto, mas decidi escrever a respeito, pois sinto que as pessoas que pensam se aproveitar dessas "ofertas", na verdade, desconhecem e/ou têm restrições ao trabalho de um profissional de interiores.
Uma parte do público pensa que nosso trabalho consiste apenas em distribuir quadros pelas paredes ou em escolher tecidos para sofás e cortinas, e que, para isso, não vale a pena contratar alguém, pois elas mesmas podem escolher sozinhas, de acordo com seu gosto pessoal. Mas uma outra parte, na verdade, não é tão auto-confiante assim e tem dúvidas sobre como deve compor seus ambientes e realmente procura por apoio na hora de decorar suas casas. Vamos focar neste segundo grupo.
O que escolher?


Acho que muitos procuram pelos tais projetos e consultorias gratuitos porque têm enormes dúvidas sobre o que vai bem com o quê, qual produto tem maior durabilidade, qual é mais fácil de manter, e principalmente, sobre como combinar os diversos itens que compõem uma casa. Eu diria que este é o resultado visível de nosso trabalho, mas que ele não se resume a isto. E este ponto não está claro para o grande público.
Além do suposto "benefício" de não desembolsar nenhum tostão com um projeto ou uma consultoria de interiores - que são serviços, e que portanto não são palpáveis como um móvel, não podem ser devolvidos, nem passados adiante - creio que existe um outro fator que motiva estas pessoas: a insegurança de contratar alguém que pode não as compreender, que crie algo que não gostem, ou ainda mais, que não aceitem suas idéias sem tentar mostrar que, às vezes, muitas de suas vontades e desejos não são harmoniosas.

 
 

Prestar auxílio e entender o Cliente: trabalho árduo ao qual devemos nos dedicar.

Penso que os profissionais de verdade, e as pessoas dispostas a terem uma casa bem arrumada, se dispõem a um trabalho árduo de conhecimento mútuo: a nós, cabe entender as sutilezas das preferências de uma família, e até mesmo os diferentes gostos que ali habitam e devem ser atendidos harmoniosamente dentro de um projeto; aos Clientes, cabe refletir sobre o que falamos, tanto em termos de estética e bom gosto quanto em termos de conforto e funcionalidade. Por isso, às vezes entramos na residência do outro para mostrar que aquele móvel antigo não mais faz parte de sua vida, ou que aquele quadro pintado por um amigo, é realmente apenas um quadro de um amigo e não uma obra de arte. É um trabalho difícil, crítico, com possibilidade de atritos, e algumas vezes há que se abrir mão de uma ou outra coisa pelo bem do resultado final. Tanto o profissional quanto o Cliente têm que refletir, pensar, pesar, conversar. E, atualmente, quando a grande maioria quer ver tudo pronto com rapidez, facilidade e pouco esforço, ninguém quer parar para pensar. Na verdade, muitos nos procuram já com uma idéia fixa e bem definida, até os mínimos detalhes, de forma que nós nos tornemos meros executantes de seus desejos, o que nem sempre resulta em algo belo, confortável ou funcional.

Na ida à loja que "cria o projeto de sua casa", não há contrato, não há responsabilidade: o único compromisso é o de adquirir os móveis ou produtos sugeridos pelo "vendedor-consultor". Nestes contatos, ninguém se demora a conhecer a personalidade e o jeito de viver dos Clientes, mas apenas o que eles desejam em termos de cores e valores. "Um piso que dê para colocar rápido", "uma cortina que não dê trabalho" ou "um tecido neutro", é o máximo que se conversa nestas ocasiões, e na dúvida entre um papel de parede levemente texturizado ou um outro listadinho, o vendedor dá sua opinião, e o Cliente divide sua "culpa", caso o resultado final não fique a contento. Na verdade o que se busca é um amigo, um apoio, uma opinião, e não de fato um serviço profissional. A maioria não quer que alguém aponte que sua casa poderia ser mais valorizada com um azul profundo na parede do corredor, ou que a moda do preto e branco passará, e que sua casa vai ficar meio "chata" com estes tons. O que se deseja é alguém que se conhece pouco, mas que pode lhe indicar o que está com um bom preço, o que é instalado mais rápido e dá menos trabalho, o que fica bonito, pois já foi feito em várias outras casas. Não há envolvimento nem valores a serem pagos, a não ser pelo que é consumido.


Persianas, carpetes, tecidos e revestimentos em abundância de opções: oportunidade para levar os Clientes a consumir o que o mercado tem a oferecer mais rapidamente, não necessariamente o mais adequado ao Cliente.
Por tudo isso, entendo que as pessoas procurem as lojas que oferecem as tais consultorias e projetos gratuitos - que de gratuito nada têm, já que o funcionário que o atende é pago pela loja, que inclui nos custos de seus produtos o salário desta pessoa. Esse público quer apenas aprovação de alguém, não um serviço técnico, baseado em estudo e avaliação. O vendedor, consultor ou projetista é apenas um amigo, um conselheiro, alguém que vai auxiliá-lo a ter uma casa arrumada, mas não alguém que diga que aquela mesa de jantar é muito grande e reduz a circulação em sua pequena sala, ou que o design do sofá não combina em nada com a poltrona que se deseja adquirir. Nestes espaços os vendedores podem até ser formados em arquitetura ou em design de interiores, mas certamente o maior interesse é o de deixar o Cliente satisfeito e concretizar uma venda, e não partir para uma análise sobre outras opções, muitas vezes disponíveis fora de sua loja.
Infelizmente penso que quem escolhe este caminho perde a chance de ter um bom projeto de interiores em suas casas para realizarem sonhos breves, balizados pelo que se apresenta nas vitrines ou pelo que está "com um ótimo preço". Não há pesquisas demoradas ou muitos desenhos para ver e analisar, apenas os móveis, um painel de cerâmica ou uma amostra de tecido. E logo dali a 15 ou 20 dias sua casa estará transformada! Se para melhor ou para pior, fica para saber depois que a compra já foi feita.


Opções simples com um pouco de cor e gastos baixos: projetos que não interessam aos fornecedores...
Penso ainda que cabe a nós, profissionais de interiores, ter uma posição mais educativa a este respeito. Não se trata apenas de mais um corporativismo, mas de esclarecer a Clientes, amigos e conhecidos porque nosso trabalho é diferente do que vem se oferecendo como "gratuito", e porque nosso trabalho deve ser remunerado, como qualquer outro serviço. Cabe também nos posicionarmos contra uma certa "pasteurização visual" que vem acontecendo no país, o que torna os interiores muito parecidos, e que tolhe nosso trabalho a uma mera repetição do que é divulgado como sendo "o que de melhor existe no momento". Mas tendência já é assunto para outro post..
Como disse no início,são reflexões importantes a serem feitas.
 
Abç ,
 
Adriana.

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